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No meu quadro a tinta ainda está fresca, enquanto na sua deve estar craquelada já pela falta de cuidado e pelo tempo que insiste em passar mais rápido para uns do que para outros

Quando eu te vi a primeira vez, quase fiquei cega. Você chegou tímido, sorriu e nos abraçamos. Eu carregava uma planta que havia ganhado e entrei no carro. Logo nos 10 primeiros minutos já estávamos conversando e rindo. Foi o dia que eu roubei o vaso de cacto, lembra? Eu sei que sim.
Você dormiu em casa e eu lembro de ter acordado no dia seguinte, olhado pra você e ter sido bombardeada com outro sorriso.
Os dias passaram e o que eu tinha era apenas aquela foto que aquela doida tirou da gente no bar, lembra? Eu sei que sim.
Na semana seguinte tudo aconteceu: você me chamou para aquele hamburguer na terça-feira, minha amiga achou que você era gay, e quando nos demos conta estávamos dentro do seu carro a caminho da praia.
Você me fez perder o medo de pular na parte funda da piscina, lembra? É, eu sei que sim.
Depois disso parecia que já fazíamos parte da vida um do outro há tempos. Eu conheci seu irmão, sua cunhada, seus amigos. Nossos amigos já te chamavam por aquele apelido que a criancinha de 2 anos te deu.
E quando eu percebi eu e você éramos nós.
Mas nunca fomos de fato nós.
Eu abri um monte de coisa pra você. Você abriu um monte de coisa pra mim. Compartilhamos histórias. Dúvidas. Traumas. Medos.
Nós éramos nós, sem precisar ser.
Era tudo tão leve. Qualquer piada era eternamente engraçada. Eu não tinha pressa.
Enquanto você estava aqui, eu nunca tive pressa.
Mas você parece ter corrido na direção oposta. A calmaria e a leveza das coisas fez com que você se afastasse. Fez com que você esfriasse. Aquela gigante barreira de gelo estava mais uma vez montada diante de mim.
E eu tentei quebrá-la, lembra?
Claro que lembra.
E mesmo assim você foi embora. Você estava muito certo do que queria. E ao mesmo tempo, não tinha a mínima ideia do que queria.
E eu vi, diante dos meus olhos, todos os dias de risada, todos os dias de paixão, todos os dias leves, todas as piadas e histórias virando apenas lembranças.
Eu vi aquele quadro em branco, cheio de espaço para o novo, se tornando um quadro incompleto.
Aqueles que a gente sabe que nunca vai terminar de pintar porque perdeu a inspiração.
Eu chorei por dias. Eu chorei dia e noite. Eu chorei.
Eu acordei um dia e não chorei mais.
Acordei outro dia e não pensei mais. Eu começava a lembrar que, de alguma forma, eu não podia esquecer você.
Um dia eu separei suas coisas. Olhando item por item, aqueles pertences cheios de histórias e ao mesmo tempo tão vazios.
Olhei pela última vez as fotos. Aquela foto, daquela festa louca em casa. Você me beijando com tanto carinho, com tanta paz. Eu lembro até hoje da sensação daquele dia, lembra? Acho que não.
Nos últimos dias eu tenho sonhado com você. Nos últimos dias tenho perdido noites de sono, tentando me lembrar de te esquecer.
Se eu lembro?
Lembro de tudo. Tudinho.
No meu quadro a tinta ainda está fresca, enquanto no seu deve estar craquelada já pela falta de cuidado e pelo tempo que insiste em passar mais rápido para uns do que para outros.
O seu tempo passou. O meu passou. O nosso passou.
Se não amanhã, depois de amanhã. Ou semana que vem. Mês que vem. Quem sabe? Quem lembra? Você lembra?
Eu nem lembro mais…

Os (dez)amores de tempos liquefeitos

Ficar de cama muitas vezes não precisa ser algo ruim. Fiquei dois dias de cama e aproveitei o meu momento de crise com o mundo para fazer duas coisas: 1) voltar a escrever aqui e 2) usar o Tinder. Calma, eu já vou explicar.

Dois dias de cama são 48 horas de “nada pra fazer”. E se você está de repouso, te sobra muito tempo livre. Tipo muito. Vi documentários sobre as baleias orcas, li uns pedaços do Decamerão, cozinhei decentemente e decidi fazer algo bem estúpido: analisar como as pessoas se “relacionam” hoje em dia. A ferramenta? Tinder. Sim sim, que coisa ultrapassada Mirella! Tinder é tão 2012, credo.

Comecei a usar o Tinder ano passado, logo depois que fiquei solteira e de lá pra cá tive um monte de histórias. Tipo um monte mesmo. Teve a história do cara que quase chorou quando eu esfreguei pão australiano no meu rosto (não perguntem, a história é bizarra por si só), teve o cara que falou que pobre não devia ter smartphone (e que eu só não desci do carro porque estava em plena Marginal Pinheiros), teve o cara que perguntou se eu topava usar um strap-on com ele (inclusive rolou quase que uma repetição dessa história hoje). Quando eu digo um monte de histórias, eu não tô exagerando. Alguns dos caras que eu saí se tornaram aquelas transas casuais por um bom tempo, outros se tornaram amigos, outros sumiram do mapa e entre eles, UM ainda é um caso não resolvido, daqueles que você não define, não quer definir e já desistiu de tentar. Mas que te faz um bem danado, te traz calma, te permite ser quem você é. Ele inclusive me acompanhou hoje na minha maratona de “matches” enquanto fazia lasanha para o jantar. 

A ideia inicial era de ter 400 matches e observar como seria a abordagem de cada um (ou da grande parte). Mas como eu sou da teoria de que “água morna não serve nem pra fazer chá”, resolvi aumentar para mil matches. 

Sim. Mil matches. (Sim, é MUITO tempo livre, não precisam me chamar de vagal because i’m aware of that).

Para isso funcionar de forma rápida eu decidi que:

1) eu iria dar like em todo mundo. Sim, em todo mundo. Tendinite mandou lembranças.

2) Eu ia expandir o raio de kilometragem para o limite máximo, assim como selecionaria homens e mulheres de idade entre 18 a 50 anos (ou mais).

Foi assim que ele ficou:

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O perfil era meu mesmo, minhas fotos. Nada fake. As fotos que já foram um dia publicadas no facebook estavam lá, com inclusive o endereço para o instagram. 

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(sim, eu comprei uma barra de 1 kilo de chocolate, e faria tudo de novo)

 Depois disso, foi dada a largada. Like, like, like, like… 100, 200, 300, 400… e no fim da noite eu cheguei aos mil matches (teve uma pausinha para jantar e jogar um joguinho bobo com post-its). 

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(os prints não me deixam mentir, taí, mil matches)

A parte mais chata foi ver as mensagens. Eu sou MUITO preguiçosa para ler mensagens. Na maioria das vezes deixo o pessoal no vácuo por inbox ou por whatsapp. Saio de grupos de conversa na maior facilidade e respondo pessoas três dias depois. É o meu jeitinho. Mas ok né? A primeira parte eu já tinha feito, agora era quase a reta final. 

Teve de tudo. De tudo mesmo. Até um cara que estava super feliz por ter estreado o seu strap-on (ou “cinta caralho”, para os leigos). Ok, né? Até aí cada um curte o que quiser. O que acontece entre 4 paredes não é do meu respeito, a não ser que eu esteja no meio. Mas nesse caso era um “thanks, but no”. Espero que ele tenha tido algum sucesso na busca por uma parceira para as aventuras sexuais.

Entre esses todos (homens e mulheres) mil matches, deu para analisar alguns comportamentos semelhantes:

1) os que falavam da tatuagem antes de falar um oi e usavam o termo “top” para elogiar (também têm os que já chegam com intimidade demais chamando de Mi).

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(cada vez que alguém fala “top”, uma família de ursos pandas vermelhos morre)

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(“você tem whats?” é o novo “bom dia”)

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(mas oi, quanta intimidade. valeu pela educação do “boa noite”)

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(por panos você quer dizer “roupa”?)

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(obrEgada)

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(mais uma família de pandas vermelhos acaba de morrer)

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(mãe, você estava certa: eu virei um gibi)

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(parem de assassinar os pobres pandas!!)

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(esse foi o mais legal da categoria porque a imagem de perfil era sobre tatuagens)

2) os sutis.

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(mas como assim? nem paga um drink, nem sussurra no ouvido, nem compra flores…calma aí!)

3) os que entenderam minha frase de perfil (“Eu tô te explicando pra te confundir”, do Tom Zé). E os que não entenderam.

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(kkk é a segunda maior causa de morte de ursos pandas vermelhos)

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(esse aí além de não entender, entrou para a categoria de mensagens “copie e cole”. ou você acha que foi espontâneo?)

4) os que não entenderam ou acreditaram que eu dei like.

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(olhaí, podia ter sido o amor da minha vida e nem me deu bola)

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(Rs é a terceira maior causa de morte dos pandas. vocês estão dizimando uma espécie)

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(~~~alternativa~~~)

5) os que iam direto ao assunto.

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(morrendo um pouquinho junto com a língua portuguesa)

6) os fofos, os confusos e os simpáticos (até demais).

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(decida-se: é ou não é?)

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(hmmm, vejamos: que tal não?)

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(own!)

7) os vizinhos. (pois é, acontece).

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(ainda bem que eu moro em um prédio sem elevador, imagina o climão?)

8) os amigos da vida real.

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(falo assim com meus amigos, entendam)

9) os policiais, os que ficam bravos quando você não responde, os que te adicionam no facebook três segundos depois do match, os caras com menos de 18 anos, os caras com mais de 50 anos falando putaria, os que te chamam pra beber as 2 da manhã, os gringos, casais procurando “ninfetas” ou “tatuadas”

10) os engraçadinhos.10624922_10152695906477280_3138502475075661467_n

(tá barato pra caramba)

e o Wally.10441355_10152695907157280_4297234999176471450_n

Desses mil matches eu peguei o contato de três pessoas. T R Ê S pessoas. Entre M I L matches. Ok, a gente leva em consideração que não dá para falar com um por um (eu teria que ficar um mês de cama para tentar algo assim) e é até bom que seja assim porque na minha opinião (tem que deixar claro hoje em dia, né? porque o nível de cagação de regra anda absurdo) essa tecnologia que nos aproxima é a mesma que nos afasta. Nos afasta de um olho no olho, de uma conversa boba, daquele flerte que dá frio na barriga, daquele momento em que se vê algo engraçado de ser compartilhado. Nos afasta de ser mais humanos, mais quentes, mais amorosos. Daquela piada com os amigos, daquela mesa de bar, daquela festa do pijama que você faz com sua melhor amiga.

Não, eu nunca usei o Tinder para encontrar o amor da minha vida. Aliás eu entrei no Tinder por causa de uma aposta, vejam só. Não, eu não estou procurando o amor da minha vida fora do Tinder também. Eu estou procurando um pouco mais de contato real, de contato humano. Dessa coisa cada vez mais efêmera, mais difícil de se encontrar. Eu procuro sorrisos das pessoas que eu gosto, eu procuro abraços, procuro mais passeios bobos pela cidade, procuro mais para ter o menos possível. 

Para minha vida não se tornar um verdadeiro inferno de notificações, eu fiz o que era esperado: apaguei minha conta. Com ela, apaguei todos os matches, todas mil possibilidades que essa grande tecnologia me proporcionou para eu arranjar uma fodinha casual. 

10632790_10152695947547280_5252308740076878402_n(sim, eu tenho certeza)

Conta deletada, um espaço livre na memória do celular e na minha memória. Um espaço para eu voltar a preencher com um pouco de vida real. Preencher com mais jantares, com mais amigos reais e com mais brincadeiras de post-it.

Atenção, isso não é um post de amor.

Faça amor, não faça jogo.

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Eu saía com um cara. A gente se deu bem de primeira, ou não. Pode ter sido o uísque, pode ter sido a maconha, pode ter sido um monte de coisa. Mas a questão é que  gente se deu bem. O sexo foi bom, o beijo foi bom, as risadas, as músicas. Tudo. 

A gente saiu uma vez. Duas. Três. Perdi as contas. Passamos a nos vermos menos. Passamos a só tomar uma cerveja. Ele passou a me dar uns selinhos sem graça. E eu perdida, sem saber como agir. Não era nenhum segredo o fato de eu estar interessada, afinal eu havia gostado de sair com ele a primeira, a segunda, a terceira, as outras vezes que perdi as contas (nem foram tantas assim na verdade). 

Nunca fui de muito “mimimi”. Se eu estou interessada, eu vou atrás, eu chamo pra sair, eu me convido pra sair, digo que quero ver, convido para um filme, uma cerveja, um jogo de tabuleiro. Que seja. Mas mostro interesse.

Acontece que esse cara em questão começou a esfriar em tudo: na conversa, nas piadas. Convívio pessoal nem existia mais. Nas últimas vezes que o vi foi por acaso nessas festas em que todo mundo que você conhece vai. E ele estava lá. E eu também. Eu nem tinha mais ideia de como agir: dava um beijo no rosto? Um selinho sem graça? Puxava ele e tascava um beijo na boca? Fingia que não vi?

Continuei por um tempo insistindo e chamando para sair. Nada. Mandava algum comentariozinho engraçado por Whatsapp. Nada. Até que eu aceitei a derrota e entendi que aquele jogo estava sendo jogado só por uma pessoa: por ele. Antes fosse joguinho de sedução. Aquele momento em que os dois estão na mesa do bar sentados um de frente para o outro, apenas esperando o momento certo para arrancarem a roupa. Não. Não era esse jogo. 

Era aquele jogo ruim, o jogo chato: “não estou mais afim, mas tenho muita preguiça de te contar”.

Calma lá cara, vamos esclarecer algumas coisas. Em primeiro lugar: você não é meu primeiro pé na bunda e se tudo der certo na minha vida, não será o último. Falar não arranca pedaço, a não ser que você peça para te morderem. Já passamos dos nossos 20 e poucos. Estamos chegando nos nossos trinta e pra quê tanto drama? Pra que tanta enrolação? 

Pra que deixar de molho quem pode estar aí, conhecendo mais uma porrada de caras legais? Que necessidade é essa de manter em stand by alguém que você sequer se interessa mais? 

Comecei a pensar em algumas possibilidades e, mesmo não sendo o cara, talvez algumas dessas se encaixe bem:

1) deixar subentendido é mais cômodo. Afinal, pra que ter aquela conversa de “não vai rolar mais, vamos ser só brothers”? 

2) quando o tédio bater na porta em um dia de chuva, que a grana esteja apertada e você não transe ha algumas semanas, é sempre bom ter uma carta na manga, né? 

3) coragem é uma virtude de poucos. E essa frase basta por si só.

Nunca vou saber o real motivo do cara ter broxado. Eu posso ser uma chata, talvez o meu cigarro o incomodasse, talvez o sexo tenha ficado banal. Pode ser tudo e pode ser nada.

Mas uma coisa eu sei: jogar a real desde sempre, deixar tudo bem esclarecido, conversar abertamente (eu não preciso ser sua namorada/noiva/esposa para ter uma conversa franca, sabia?) ainda é o melhor canal para as pessoas se entenderem. Sabe aquela frase de vó que diz “quem não se comunica se trumbica”? É exatamente isso. Você pode até conseguir fugir de lidar com algumas coisas na sua vida, mas o joguinho uma hora acaba. 

Uma hora a necessidade de ter respostas vai partir de você e esse vai ser o momento em que você vai jogar todas as cartas na mesa e dizer: “tô fora!”.

Por isso gente, vamos cair na real. A verdade dá sim uma pontadinha no ego, mas nada que deixe cicatrizes permanentes. Vamos ser mais honestos com nós mesmos, com os outros, deixar os joguinhos de lado e fazer a fila do mundo andar, combinado? 

Ah! E Feliz 2014! 

 

lulu(náticas)

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Acordei dia desses e o assunto do dia era um tal de Lulu.

Ignorei as dezenas de publicações e segui a minha vida (afinal as contas não se pagam sozinhas, não é?). No dia seguinte foi a mesma coisa: Lulu, Lulu, Lulu…

“Mas que diabos é esse Lulu?”.

Baixei.

Sorte a minha não ter almoçado ainda, pois com certeza eu teria vomitado.

Para os que ainda não sabem, o Lulu é um aplicativo onde as mulheres dão notas e adicionam hashtags anonimamente para os homens. Vi de tudo lá: desde grandes amigos meus lá, sendo julgados como “não faz nem cócegas”, até caras que eu realmente não conheço que entravam na categoria “carro do ano”. Hashtags infinitas que eu sinceramente não vou lembrar e não faço a mínima questão do mesmo.

Minha sensação foi de tristeza. Onde estamos indo com tudo isso? Desde quando as relações humanas se tornaram uma questão de escolha por nota, tamanho de pau ou seja lá o que for? Olha, eu já saí com caras que não tinham um puto no bolso e me diverti como nunca. Já saí com cara que tinha carro do ano, casa na praia, apartamento próprio e uma conta bancária recheada. E ele foi um grande babaca. Já saí com cara de pau grande e adivinha? Não dava conta do recado. Já saí com caras de pau pequeno e gozei como ninguém. Não dá para simplesmente categorizar um relacionamento baseado no que você viveu com fulano e sabem o motivo?

Cada indivíduo é diferente um do outro. Nós funcionamos de maneira diferente com diferentes pessoas.

Mais alguns pontos:

1) Nós mulheres sofremos abusos de todos os tipos, todos os dias. Nós vamos à protestos, brigamos pelo nosso direito de usar roupa curta e não sermos estupradas ou abusadas verbalmente, certo? Nós não somos objetos, não somos mercadoria, não aceitamos ser julgadas pelo estilo de vida que levamos, ou roupa que usamos, ou lugares que frequentamos, certo?

Então me respondam: por que vocês acham que seria uma boa ideia colocar os homens (muitos deles grandes amigos seus, ex-namorados que foram incríveis, paixões platônicas, ou simplesmente aquele cara que não deu certo) com uma “etiqueta” definindo se ele vale 1 ou 10, se tem #labiosdemel ou #trespernas? Não é exatamente a mesma coisa? Não é chegar ao mesmo nível de todos que faltam com respeito todo-santo-dia em relação à nós? O que está passando na cabeça de vocês?

2) Não devia ser permitido à ninguém expor defeitos dos outros de uma forma tão baixa e covarde. Quer falar de defeito? Quer falar pro cara que não gostou da trepada? Tenha a decência de pelo menos falar cara a cara. Nem nós mulheres, nem mesmo os homens merecem ter a intimidade exposta dessa maneira cruel. Isso aqui não é reality show. Assim como nós temos nossos traumas, problemas e defeitos, os homens também os têm. Sim, eles broxam. A gente também. Sim, alguns deles gostam de “coisas diferentes” na cama. Nós também. Isso não dá à ninguém o direito de tornar a intimidade do outro pública dessa forma. Se você acha isso legal, se diverte com as amigas e sai por aí dando nota em caras que possivelmente são meus amigos e são fantásticos, você é uma escrota. Sorry, mas é!

E também  não venha fazer a indignada quando uma adolescente se mata por causa de um babaca que divulgou foto ou vídeo em momento íntimo, pois você está fazendo o mesmo. E pior: de forma anônima.

3) Minha família me ensinou a enxergar além da aparência. Claro, ter um cara bonito ao seu lado é legal? É sim! Mas aquele considerado “feinho” pode te fazer feliz também. Sabe aquele cara rico e de pau grande? Pode ser um louco. Sabe aquele gordinho? Pode te dar orgasmos múltiplos. Não tem como saber a não ser conhecendo a pessoa, olho no olho, pele na pele, numa mesinha de bar ou no café. No convívio diário. Nas dificuldades e nas alegrias. Na relação que é construída e que só diz respeito à vocês dois. Façam um favor para que a humanidade não se perca ainda mais: deleta o Lulu, seja menos superficial e não julgue o livro pela capa.

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Rapazes que assim como eu acham esse aplicativo, essa ideia e todo esse retrocesso na educação e relação humana desnecessário, podem bloquear a conta de vocês no Lulu nesse link aqui:

http://company.onlulu.com/deactivate

gostosa é o caralho

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Hoje logo cedo, indo para o trabalho, passei por dois policiais. Estava calor. Usava uma saia floral e uma regata branca. Nada ousado. Nenhuma transparência. Eu também não sou o tipo de mulher cheia de curvas: sou magrela, baixinha. Mas mesmo assim ouvi de um deles aquele invasivo “gostosa”. Logo depois eles viraram entre eles, comentaram algo baixinho e deram uma risada.

Ontem eu ouvi um “se eu pego essa magrela, quebro no meio”. Assim, na lata. Gratuitamente.

Há quase quatro anos, fui espancada na rua. Uma tentativa de assalto sem reação da minha parte. O cara não estava nem aí. A bolsa estava jogada no chão (onde eu também estava), e o grandalhão me dava chutes na costela, nas pernas e por fim tentou me enforcar. Era de tarde, as pessoas passavam na rua, eu pedia socorro e ninguém fazia nada. Ninguém.

Por fim antes de desmaiar, acabei sendo socorrida por dois homens: um funcionário da CET que parou o carro para me ajudar e um pedestre que partiu pra cima do agressor que levantou as mãos, levantou a camisa para mostrar que não estava armado e ainda fez cara de “mas calma, eu nem estou carregando um revólver”.

Desde então, em qualquer lugar que eu esteja, eu me sinto desprotegida, indefesa, à mercê. Todos os dias a sensação é a mesma: se alguém anda rápido atrás de mim, eu congelo, meu coração acelera e eu já penso o pior. Se não for assalto, alguém vai me espancar e de novo, ou até então abusar de mim. Eu sou apenas um exemplo da quantidade de mulheres que sofrem os mais diversos abusos todos os dias. 

Essas mulheres que são tratadas como objetos. Essas mulheres que só servem para ser chamadas de “gostosas”, ou que “pediram para ser estupradas”. 

Ninguém pede para ser abusado fisica ou sexualmente. Ninguém pede para ouvir palavras de baixo calão na rua enquanto está com as amigas, ou indo para o trabalho ganhar o dinheiro suado e pagar as contas no fim do mês. Ninguém gosta de andar na rua com medo.

Há quem ache engraçado quando leva uma cantada na rua: “ah, é elogio”. 

Não! Não é elogio ser vista como um pedaço de carne e ter que ouvir o que um babaca faria com você se “te pegasse”. Não é legal você ser obrigada a sair segurando a chave na mão na ilusão de se proteger, ter que pegar um táxi e usar calça jeans em uma noite quente porque é perigoso voltar para casa andando.

Não temos liberdade, não temos voz, não temos nem à quem recorrer afinal se um policial que deveria estar protegendo a sociedade é o mesmo que te rebaixa, em quem confiar?

No Brasil o número de estupros em 2012 foi maior do que o número de homicídios dolosos (quando há intenção de matar), e esse número só cresce a cada dia que passa.

Nós mulheres já sabemos o que queremos e o que não queremos. Já trabalhamos e nos sustentamos. Já mostramos que temos sim voz ativa. Que quem manda no nosso corpo somos nós. Mas mesmo assim, há quem ache que a força física ou o poder que são usados contra nós vai mudar nossa vontade de continuar lutando para sermos livres.

Lamento informar: não! Vocês não vão calar essas vozes raivosas, cansadas, doentes, feridas, roucas. 

E antes que eu me esqueça: gostosa é o caralho!

o João de Santo Cristo de cada dia

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Sorte de quem nunca foi assaltado. Sorte maior ainda de quem nunca foi assaltado com um revólver apontado para sua cabeça. O caso do assaltante que foi baleado ao tentar levar uma moto trouxe à tona a velha frase: “bandido bom é bandido morto”. Mas quem é o bandido e quem é o mocinho nos dias de hoje? Eu ficaria extremamente enfurecida se alguém simplesmente tomasse o que é meu por direito. Se alguém abusasse do poder para tirar de mim, algo que eu lutei de forma honesta. Mas será que é só o jovem da periferia com seu revólver que faz isso?

Polícia Militar divulgou uma nota em que dizia que a ação do policial foi legítima e correta, e que o policial “demonstrou preparo e compromisso com a causa pública, defendendo a sociedade de criminosos violentos”.

“Obrigado policial. Obrigado. Vai roubar no inferno”, disse o dono da moto. Entre outras pessoas que comentavam que é melhor mãe de bandido chorar, do que mãe de gente honesta. Mas o que nos define bandidos ou mocinhos?

Somos bandidos toda vez que tiramos vantagem em cima de alguém. Toda vez que o garçom do bar esquece de cobrar aquela cerveja e você também não avisa. Somos bandidos quando jogamos o carro em cima de ciclistas e fugimos. Somos bandidos quando agimos de má-fé. Não escapamos do posto de bandido, por mais incrível que seja o seu cargo na multinacional, ou por mais que você vá à igreja pedir perdão pelos seus pecados.

Aqueles engravatados que fazem promessas diante da televisão todos os anos, que inflacionam nossos impostos e que descaradamente superfaturam obras para o funcionamento da cidade também são bandidos. Aqueles filhos de milionários que matam pessoas no trânsito por estarem dirigindo embriagados e que esperam julgamento em liberdade por terem condições de pagar fiança, também são bandidos. Todos temos um pouco de bandido dentro de nós.

A história do assaltante é só um reflexo de como enxergamos o lado mais fraco da corda. Se é pobre, preto, favelado e foi roubar, merece morrer. Merece mesmo? Afinal quem define quem vive e quem morre? A Polícia? O Estado? A mesma Polícia que atira balas de borracha contra manifestantes? O mesmo Estado que nos usa como marionetes para fazer com que nos tornemos inimigos?

No caminho de casa, acabei lembrando daquela música do Legião Urbana, “Faroeste Caboclo”. João de Santo Cristo, rapaz que desde sempre viveu no meio de discriminação e miséria, que foi atrás de um sonho e acabou por cumprir seu papel como bandido diante da dura realidade que o rodeava.

Sim, eu fico triste, fico com raiva, me sinto impotente, assustada e desprotegida quando sou assaltada. Quando amigos meus são assaltados. Quando algum familiar é assaltado. Mas os “bandidos” vão continuar existindo enquanto não percebermos quem são os mocinhos que deixam os revólveres à vista.

Desejar a morte de um assaltante, achar que a culpa é dele ou da família não cabe a nós. Temos, sim, que prezar por nossos bens, nossa integridade física e acima de tudo nossa integridade moral. Um dia, os “mocinhos” estão do seu lado, curtindo cada bandido baleado. No outro, você pode estar sendo o bandido por estar usando máscara em um protesto onde está lutando pelo seu direito de cidadão.

E aí, a culpa é de quem?

a falsa liberdade

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A opinião alheia é uma pedrinha no sapato que não sai nem com reza brava.

2013, século XXI. Uma era onde todo tipo de informação chega de forma quase imediata em nossos celulares ou tablets. Pessoas voltaram às ruas, depois de anos, para reivindicar seus direitos em todos os cantos do mundo. A tecnologia continua avançando de forma absurda. A ciência também.

E ainda assim me assusta a forma como tratamos a opinião alheia. Longe de mim levantar qualquer bandeira. Acho que qualquer extremo é completamente desnecessário e difícil de ser tolerado pela sociedade. Embora isso seja uma realidade óbvia e cheia de preconceito não declarado.

Vivemos sob uma falsa sensação de liberdade de expressão, onde, quem fala o que pensa de acordo com a lei dos bons modos, é uma pessoa bacana e estudada. Quem esculacha, chuta o pau da barraca e fala palavrão é radical, feminista, anarquista, libertino… (escolha aqui sua ofensa).

Ainda está para nascer quem consiga esclarecer essa necessidade de rotular tudo e todos. Sério mesmo, alguém explica?

Falta muito, mas muuuito para que exista a real liberdade de expressão. Para que exista o real respeito no pensamento alheio.

Existe uma grande necessidade de abocanhar os princípios alheios com o pretexto de: “Se você faz isso, você está me desrespeitando”. Peraí, isso significa então que eu tenho que ficar calada, sentada num canto do quarto porque do contrário, vou estar te desrespeitando? Oi?

Falta de respeito para mim é não aceitar que existam diversidade de pensamentos e opiniões, e usar isso como pretexto sem fundamento para explicar a preguiça em entender, aceitar e até mesmo se permitir conhecer novos padrões de pensamento e comportamento.

Assim como a buceta peluda ainda é motivo de “fuzuê” e opiniões diversas, o direito de se expressar ainda é uma pedra no sapato para muita gente por aí.

Deixem minha buceta, meus pêlos, minha opinião e minha falta de delicadeza em paz. Ou abram a cabeça e aceitem a diferença.

a beleza da buceta

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Todo um pudismo desnecessário em cima de um órgão que, querendo ou não, você saiu de dentro.

Ontem circulou um post sobre uma camiseta com uma estampa “polêmica”: uma buceta peluda, menstruada e sendo masturbada. Com o acesso rápido à informação que a internet permite, logo o link estava sendo compartilhado com comentários dos mais diversos tipos.

Entre eles, algumas mulheres que mostravam nojo em relação à estampa. Achei engraçado e um pouco triste. Pra ser bem sincera, eu gostei da camiseta e usaria sem nenhum problema por alguns motivos que seguem:

1) Buceta é uma coisa linda. Todas elas. Já parou para dar um google e ver os diversos formatos que nós mulheres (e até alguns homens que viraram mulheres) carregam por aí? Pois é.

Claro que algumas são mais enrrugadas, ou grandes demais, ou pra dentro, mas até aí nenhum pau é igual e perfeito, né?

2) Menstruar é em primeiro lugar, algo biológico. Você querida mulher, não pode não menstruar (a não ser que você tome remédios para isso). É o sinal que nosso corpo está atravessando um estágio. Nossos óvulos estão em funcionamento, nosso corpo se desenvolvendo. Alguém vê algo nojento nisso?

Muitas mulheres vão dizer que “sim, é nojento” e isso é de direito de cada uma. Mas partindo do pressuposto que você se limpa diariamente e se cuida em suas relações sexuais, a menstruação não é nada mais que um fluído. Assim como a porra, olha que legal.

E tem mais: quando estamos menstruadas ficamos mais sensíveis e podemos aproveitar a TPM para nos entupir de chocolate. Só consigo ver vantagem.

3) Masturbação é uma delícia gente! Bater uma depois daquele dia estressante de trabalho então? Sem palavras.

Desde muito cedo fomos condicionadas à achar que só os homens se masturbam. Desde o seu irmão mais novo que se trancava no banheiro, até seu namorado que vê pornôs diariamente.

Somos sim, sexualmente oprimidas. Como se o prazer feminino fosse algo errado, feio, vergonhoso.

Gata, posso contar uma novidade? Mulheres se masturbam sim! Mulheres também assistem pornô e a grande maioria delas faz isso acompanhada do querido vibrador.

Se masturbar é uma ótima maneira de se conhecer, de se proporcionar prazer e mostrar ao parceiro (ou parceira) o que você mais gosta. Mais uma vez: só vejo vantagem.

4) Pêlos. O que falar de pêlos?

Há algum tempo, a sexualização da barba causou um boom de homens barbudos por aí. Barba é sinônino de trepada: “faça amor, não faça a barba”.

Eu me atraio sim por homens com barba, mas quer saber? Eu também me atraio por homens sem barba. Partindo desse pensamento, uma bucetinha peluda pode ser considerada linda também, é só mudar o ponto de vista.

Não venham me falar que pêlos pubianos não são higiênicos porque na boa, já vi muita menina depilada que era mais porca do que aquela sua vizinha hippie com pêlo embaixo do suvaco. E aposto que você também. E se você acha que ter uns pelinhos salientes vão diminuir suas trepadas, aí vai outro recado: os homens (e até mesmo algumas garotas) não se importam. Uns ou outros até gostam quando ela está lisinha, mas nunca vi relato de alguém que deixou de dar um por que “a mina estava muito peluda”. Eles normalmente nem percebem.

Que fique claro que eu também me depilo, mas também tenho meus momentos “Claudia Ohana”. Depilação para mim é puramente opcional: quando eu estou afim, tiro. Quando não, deixo cultivar. Nunca me achei nojenta ou menos mulher por estar peluda.

Já até fui pra praia com alguns pelinhos fora do lugar. Repararam mais nas tatuagens do que na minha virilha.

É claro que opinião é igual cu e é completamente aceitável que existam mulheres que prefiram se depilar, que não se permitam dar uma gozadinha e que tomam remédio para não ter que lidar com o sangramento matinal.

Mas todas essas questões fazem parte do mundo feminino. Você pode até não querer nada disso, mas ter nojo do seu próprio corpo e seus fluídos é quase como ter nojo de ser mulher.

Por isso gata, seja você depilada ou não, gorda, magra, com o suvaco peludo, com a unha roída, operada, com “capô de fusca” ou não, o primeiro passo para que camisetas como essas passem a ser usadas na rua sem causar espanto, é se aceitar. Você não é nojenta, você é linda! Aceite-se, e vista a camisa.

Literalmente ou não.

 

update: http://www.vice.com/pt_br/read/conversamos-com-petra-collins-sobre-sua-camiseta-da-vagina-menstruada?utm_source=vicefacebr